Atenda a Realidade como ela é

E então, um dia você acorda, escova os dentes, e a Realidade bate a sua porta. Você a atende, a convida para tomar um café, e pergunta o que ela faz na região. Ela diz que está só de passagem. Você pergunta da família, do trabalho, ela diz que está tudo bem, que a Agonia, o Desespero e o Niilismo vão muito bem, que o negócio, mesmo sendo familiar, não tem falhas.

Ela lhe conta sobre os últimos fatos: Você está sozinho. Você nasceu com ajuda de duas pessoas, e esta foi a contribuição final que qualquer pessoa no mundo deu em sua vida. O resto foram meras ajudas, tudo que conquistou – ou não – não foi obra do acaso, foi você mesmo quem construiu – ou destruiu.

Sua vida não foi uma mentira bem construída, mas sim uma verdade nua, crua, e pior, todos os fatos, negligencias, prantos e sonhos foram solitários. Você diz que tudo isso dependeu de fatores externos – mas ela diz que isso sim, foi uma mentira bem construída.

Enquanto ela te acompanha até a cozinha para você passar mais café e pegar alguns biscoitos, ela continua – explica que você está condenado a viver sob o livre arbítrio, uma lei universal que te penaliza e obriga a fazer tudo que quiser, e depois responder a estes fatos. Nem você – nem ninguém – foi obrigado a fazer nada do que fez. No máximo, foi fraco e respondeu a chantagens.

Você liga a televisão e no jornal está falando sobre o tempo, você comenta que hoje, como está sendo um dia quente, é melhor levar um guarda-chuva na bolsa. Ela diz ainda que você não teria coragem de dar cabo a sua vida, pois por mais miserável que esta seja, você está agarrado ao material, ao sólido, e se recorre a fé, todos dizem que vai para o inferno. Pode até não acreditar, mas te causa uma certa perturbação pensar sobre a eterna escuridão que o não-ser é, e penar a eternidade, por um ato de autopiedade, também não é muito agradável.

Você percebe que ela te finta nos olhos, e te diz que tudo que você colhe, é fruto das sementes do passado. Você está eternamente condenado a viver, pelo menos o quanto se diz de existência. O resto é apenas especulação, e nem mesmo a certeza que não existe nada após a morte lhe é garantida. O pânico de pensar que nem a morte lhe trará sossego não deixará a sua soleira jamais, estará de guarda à sua porta quando precisar.

Você pergunta se ela quer assistir o programa matinal enquanto toma banho, ela diz que sim. Pedes desculpa a ela, pois a conversa está boa, mas você tem que trabalhar. Toma uma ducha, se veste de sua armadura contra o pensamento, pega os fones de ouvido de seu celular e na porta se despede da realidade.

Ao entrar no ônibus, percebes que ela te segue, mas não te encara, apenas te observa como observa qualquer um dos rostos cinzas que estão ouvindo música no ultimo volume no celular. Você não é especial na multidão.

Agora que você a percebeu, ela lhe acompanhará o resto da vida, lhe condenando a viver fazendo o que quiser, dependendo apenas de si mesmo, e pior, sem ninguém para culpar.

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