Já faz um tempo, na virada do século, moravam juntos uma megera e seu sorridente marido bonachão.
Ambos moravam em algum subúrbio de uma capital do país, em uma casa grande, porém modesta. Fresca no verão, aconchegante no inverno. Uma casa alta e com cores frias, com telhado obtuso, como se aguardasse a neve que nunca chegará aos trópicos. A casa estava ali, esmagada entre construções, em uma ladeira ingreme. A casa possuia um ar ébrio e calmo, quase tedioso, com um silencio palpável e corpóreo.
O velho, sempre sorridente, era como qualquer um daqueles velhos sorridentes que todo mundo no bairro conhece, por ser sorridente e que dá bom dia a todos que encontra na rua. Sobrancelhas grossas e brancas, que faziam sombras em seus olhos fundos e profundos, sinceros e confiantes. Barba bem feita, tão branca e bem cortada quanto os cabelos, agora escassos embaixo da boina, que combinavam bem com sua camisa simples embaixo de um colete bem alinhado. Roupas quentes para um verão azul esverdeado.
A megera, por sua vez, a simples menção a seu nome poderia fazer leite coalhar ou crianças quererem entrar em casa. Cabelos negros com não tão raros fios grisalhos, marcas profundas de expressão de alguém que pestanejou a vida toda. Sempre vestida de negro, abandonada a uma falsa viuves que a abraçou desde o primeiro marido. Daquelas carolas da Igreja, que por mais que tenham o joelho calejado e rezas a ponta de língua, jamais teve alguma piedade, fé ou amor cristão no peito. Tudo isso só de olhar para a mesma, pois poucos se atreviam a falar com a mesma. De fato, uma beleza rude, macabra, alta e esbelta, mesmo para sua idade avançada.
Ambos se acolheram para abandonar a viuves e ter a quem recorrer após terem criados seus filhos e enterrado seus cônjuges. Ou melhor dizendo – apenas ele quem pensava assim.
A megera, por começo, talvez pensava em ter para si alguém acolhedor e bondoso como aquele simpático senhor ao lado. Ele era sim daquele tipo de pessoa que queremos como pai, avô ou companheiro de taverna, mas a ranzinza depois de muito pouco tempo, começou a sentir ódio do modo que o homem conduzia sua vida – sem preocupações, medos ou travas, apenas orgulho de uma vida inteira bem vivida.
O homem tinha para si uma botica. Simples, modesta, mas conduzida com carinho e zelo, assim como varias outras de suas coisas. Gostava sim do sustento que seu próprio negócio o trazia mesmo depois da idade, mas gostava mesmo é de atender, de ter contato com as pessoas – as quais este conhecia pelo nome.
Este também gostava muito de animais, e acolhia de tempos em tempos cães novos, mesmo sem raça ou linhagem, apenas por gostar da alegria jovial que apenas estes podem trazer a um senhor de tanta experiência de vida. Pássaros, estes sim, cantando na sóbria casa, de tempos em tempos, mesmo engaiolados, com uma alegria impávida.
A velha, ranzinza, por fim, no auge de seu pessimismo assombroso que a acompanhou a vida toda, se irritou com o modo que o velho conduzia a vida. Talvez por inveja, que um homem tão desleixado com sua vida religiosa já tivesse com toda a certeza garantido sua pós-vida no céu, talvez apenas pelo prazer de trazer tormento a vida de todos a sua volta. Mas, enfim, ela se irritou.
De modos suspeitos, a botica do velho uma noite foi tomada em chamas. Todo o zelo e cuidado que ele havia dedicado a cada metro daquele negócio se tornara cinzas. Queimada até os fundamentos. Talvez uma vida, e não uma vida como que tomamos normalmente, mas uma vida totalmente dedicada, havia sido consumida em labaredas.
Rumores tomaram o bairro, mas o velho não se deixou abater. De algum modo, em pouco tempo, refez tudo que havia perdido em conta de suas economias e em um novo local, atenderia novamente toda a clientela. – Por sorte, ninguém se feriu, Graças a Deus – Dizia o homem sorridente e bonachão, como sempre.
Em silencio, seus animais um a um foram enterrados em seu modesto jardim. Morriam repentinamente, expiravam repentinamente. Mais rumores foram ditos no bairro, mas o velho não se deixava abater – Assim é a vida, Deus dá, Deus toma – dizia. Triste, mas mesmo assim, em pouco tempo estaria sorrindo novamente, mesmo numa casa mais silenciosa e triste.
Por fim, o óbvio se tornou claro: Nada do que poderia ser feito de modos mortais ou impunes o abalaria. A velha, em seu silencio criminoso, mesmo após ter queimado a botica de seu marido ou envenenado cada um dos seus insuportaveis sacos-de-pulga e passarinhos inúteis do velho, ainda não tinha abalado ele.
No cúmulo de seu delírio, procurou em um acampamento cigano alguém que a ajudasse a cometer um crime maior, algo o suficiente para tirar aquele sorriso idiota de seu marido. Escurrassada a paus e pedras por tal pensamento infame, ela se encontrou, ferida – física e psicologicamente – em uma encruzilhada.
Apenas com as moedas que havia carregado na bolsa – para pagar os ciganos caso aceitassem a proposta – amaldiçoou tão profundamente, usando palavras tão fortes – fortes o suficiente para não caberem na boca de uma velha da idade que carregava – que fez surgir no horizonte mais do que depressa algo que não era deste mundo.
Um homem, de pele vermelha, bigode fino, terno branco riscado, cabelos bem cortados guardados dentro de um panamá creme, fumando um charuto e sorrindo uma boca a qual só de cruzar olhares parecia deixar algo faltando. Um olhar malandro de olhos claros – Isso você perceberia caso tivesse coragem de trocar olhares com o mesmo.
Mas a velha, tão malévola quanto a própria figura, cruzou olhares com ele. Talvez ali pudesse haver uma guerra de egos infindável, mas isso só tomou alguns segundos, ambos se encaravam profundamente, até que o homem, com uma expressão séria, cortou o silencio:
- Odeio pessoas assim – foi dizendo segurando seu charuto – Velhos bonachões e sorridentes, que não se abalam em desgraças – tragou o charuto e soprou uma fumaça vaporosa, com cheiro de enxofre – Velhos Jós, que parecem tomar para si a alegria destinada a mim ou a você, sem nem mesmo entenderem direito como o faz. Odeio pessoas assim.
A megera olhou horrorizada à figura, mas logo sorriu quando estas palavras tocaram seu coração seco.
- Me leve a casa de vocês. Amanhã aparecerei, observarei teu marido de perto, por uma tarde, e então, de noite, quando todos estiverem dormindo, levarei dele a coisa que mais puder lhe abalar, e tirarei a alegria imbecil que este carrega. Eu sei o que pode ser esta coisa, mas quero olhar de perto, e ter certeza que levando el eu o atingirei. – tragando o charuto e deixando as cinzas cairem, continuou – este é o único mal que posso realizar.
Sorrindo, a mulher prontamente aceitou. A figura continuou – recusou os óbulos em sua bolsa, pois este serviço, ele queria fazer de graça.
Voltando para a velha casa, a velha dormiu sorrindo, sentindo-se vingada.
Prontamente, lá pelo meio da tarde, momentos antes da nova botica do velho fechar as portas para o recesso, a figura apareceu. Talvez fosse a única alma acolhida pela velha em anos em sua casa, mas foi recebido como um velho amigo, com um jantar e cama pronta para pernoitar. Momentos depois, o senhor dos sorrisos chegaria em seu lar. Mesmo tendo arrepios ao ver a figura, o acolheu, e pouco tempo depois, conversava como o mesmo, rindo alto como quem conversava com um amigo de longa data.
Tomando do melhor conhaque do velho, a figura sorria cinicamente, não para o sorridente senhor, mas para a situação. Olhava cada detalhe da casa, desde os pequenos animais, até as decorações, ou o brilho bruxuleantes das lamparinas da casa.
Pouco tempo depois, o velho convidou seu estranho hóspede a se retirar para o quarto arrumado para o mesmo, pois estava cansado e o outro dia seria longo, como todos os outros. Sorrindo, este aceitou e falou para a velha que agora tinha certeza. Muito sorridente, a velha levou o hóspede para o quarto e foi se deitar próxima ao marido.
Ao passar do meio da noite, a figura foi embora da casa levando a única coisa que poderia abalar o velho – Sua esposa querida, que por mais que fosse obviamente de má-índole, que claramente havia matado cada um de seus cães e queimado seu querido negócio, era a mulher que este havia decidido cuidar e dedicar uma vida de amor, na esperança dela ter uma velhice calma e mais caridosa, o tomando como exemplo, levando uma vida menos amarga e talvez, se existisse um pós-vida mesmo, ter uma vaga garantida pelo menos no purgatório – e não no inferno, tal qual a mesma foi arrastada para alguns æons de tortura e sofrimento, por ter aceitado um pacto com o próprio diabo.